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Libertar o papel da zeladora emocional por Bethany Webster




Despertar para o nosso poder total é um processo de subtracção - subtrair as mensagens tóxicas e crenças que vamos adquirindo e substitui-las por crenças que reflectem a nossa verdade autêntica e pura.


Este processo de subtrair os nossos padrões e crenças pode levar anos, mas é uma viagem que vale a pena. Infelizmente, não há nenhum atalho ou forma de acelerá-lo. Isto porque, enquanto atravessamos este processo confuso e doloroso, o nosso coração está sendo refinado e "amaciado" para ser uma casa mais espaçosa para o Divino dentro de nós, para o Divino se manifeste e viva através de nós; um veículo de verdadeira compaixão para ser expresso ao mundo.


As peças que gostaria de abordar são precisamente os passos que nos transformam em seres divinos que verdadeiramente somos na nossa essência.


A verdadeira compaixão requer um total reconhecimento do sofrimento - e não um afastamento dele. Lembro-me de um dia que em terapia finalmente me estava a permitir sentir o pleno da dor que eu carregava e a qual eu estava a evitar há anos. Enquanto sentia como se estivesse a ser rasgado o meu núcleo por este sofrimento e dor, eu tive um insight que mudou a minha visão do sofrimento. Foi justamente quando eu finalmente me permiti sentir a verdade total e peso da dor que eu estava a evitar, para que eu pudesse finalmente validar-me de uma forma que antes era impossível.


Um pensamento explodiu dentro de mim - "Claro que eu iria sentir esta dor, faz todo o sentido!" Eu era capaz de legitimar meus sentimentos de tristeza - e esta legitimação permitiu que a dor se transformasse num profundo alívio e paz. Tornou-se totalmente claro que as outras pessoas têm sempre uma razão para os seus sentimentos e ações, não importa o quão irracional ou fora da base nos possam aparecer. Senti em mim que todos merecem compaixão, porque todos nós, de alguma forma, sofremos por razões muito legítimas. Estamos todos no meio de uma grande transformação.


Ao permitir que fosse removido do meu coração uma dor que eu pensei que me iria matar, mais espaço foi criado dentro dele para oferecer amor - sentir amor - receber amor - para SER amor. Eu vi que o propósito da dor e do sofrimento é expandir nossa capacidade de amar. Não é um amor sentimental e superficial, mas um amor feroz - um amor que incessantemente busca e abraça a verdade.


Como crianças do sexo feminino, são-nos ensinadas certas coisas sobre o amor e as emoções. Principalmente nós somos condicionadas a ser "boas meninas", agradáveis, doces, educadas, tranquilas e convenientes, compreensivas, submissas e complacentes. Ensinados aos meninos que não devem chorar, enquanto que às meninas ensinamos que devem sentir todos os tipos de coisas, mas para expressar apenas os sentimentos "bons". Como mulheres, muitas de nós já se acostumaram a carregar o peso emocional daqueles que nos rodeiam, como forma de sobreviver e lidar com essa expectativa da sociedade. Isso pode manifestar-se pr sentirmos uma responsabilidade esmagadora para com a saúde emocional das nossas famílias e parceiros, juntamente com o esgotamento de não nos importarmos o suficiente de nós mesmas. Podemos até ser compensadoras aqueles que nos rodeiam e que estão distantes de suas próprias emoções.


Estamos geralmente concentradas no bem-estar dos outros, negligenciando o nosso próprio bem-estar.


À medida que desejamos viver de forma mais autêntica e em alinhamento com nossos desejos genuínos, o processo de subtracção começa. As crenças e padrões de "cuidar" e de peso de responsabilidade começam a fazer-nos sentir "apertadas" e desconfortáveis. Começamos a ver as situações e padrões aos quais estávamos a ceder o nosso poder, carregando o peso emocional dos outros, enquanto atenuamos os nossos próprios sentimentos para "manter as coisas juntas" ou "manter a paz". Começamos então a ter vontade de sentir a plenitude de quem somos e para realmente vivê-la! Com o tempo, pode transformar-se a partir de um simples desejo até a uma necessidade plena - a necessidade da tua alma viver de uma forma que é verdade e podes expressar quem tu és. Este é um desejo sagrado de viver em liberdade - como o amor que tu és.


Ceder deste papel pode criar conflitos com as pessoas das nossas vidas que estão acostumadas a que assumamos a função de "carregar" a relação. Coisas que estão desequilibradas ou que são unilaterais vai ficar abaladas e estimuladas à transformação.


Há uma diferença entre cuidar, amigo/familiar compassivo e o permitir-se ser a lixeira para os problemas emocionais dos outros.


Eu fui criada no tipo de família onde tudo parecia maravilhoso na superfície, mas o ar era nocivo com ressentimentos e uma raiva silenciosa. Como uma criança do sexo feminino que eu aprendi que eu era preciosa quando fazia todo o mundo feliz. Eu acreditava que se eu fosse realmente "boazinha" que iria resolver todos os problemas da família. Então eu fiz o meu melhor para ser sempre doce, amável, educada, silenciosa, alegre, optimista, compatível e agradável. Era uma maneira de me sentir no controlo do que sentia num ambiente muito inseguro onde eu não tinha controlo.


O ponto de viragem para mim como um adulta veio quando eu percebi que esse padrão ainda estava em funcionamento. Como mulher, eu ainda estava tentar fazer o meu melhor por ser uma "boa menina". Eu percebi que esse padrão nunca tinha resolvido os problemas da minha família. Eu percebi que ainda estava à espera por algum tipo de "recompensa" pelo meu trabalho duro de contorcer-me para agradar aos outros. Este foi um contrato tácito que tive com a minha família de origem e com o universo - "Se eu sou boa o suficiente, um dia, eu vou ser uma menina real! (não é uma boneca que sempre finge ser feliz.)"


Infelizmente, eu vi que estava a sacrificar-me na esperança de resgatar a minha família. Tive que enfrentar como me sentia indefesa em criança e que isso me levou a adoptar essa estratégia de sobrevivência da "boa menina" e "guardiã emocional/caixote de lixo emocional" para os outros.


Percebi a tristeza por todos os anos que passei esforçando-me e lutando para curar a minha família e provar o meu amor infinito e altruísta por eles. Foi colossal de ver que minha família era incapaz de me reconhecer ou de me ver da forma que eu queria, pois as suas próprias feridas não estavam cicatrizadas. Isso é culpa de ninguém, apenas uma forma de ser. este processo abriu-me para muita tristeza, raiva e, eventualmente, uma profunda compaixão por eles. Também me libertou para abraçar totalmente a mim mesma e minha vida.


É possível libertar-nos de papéis repressores e contratos não verbais


Eu descobri que existia um monte de contratos não verbais na minha família. Eu vi que minha mãe tinha um contrato tácito comigo, esperando que eu nunca a iria superar e agir sempre como sua terapeuta / conselheira. O meu pai tinha um contrato tácito, esperando que fosse eu a protegê-lo dos problemas de minha mãe, servindo como terapeuta dela e sua mediadora / pacificadora. Quando eu decidi que não iria fazer mais essas coisas, a minha família entrou em crise. A estrutura implodiu à medida que eu ia estabelecendo limites saudáveis e deixei de os proteger dos seus próprios problemas. Como a filha mais velha, foi impressionante perceber que eu tinha servido como a zeladora emocional da família. O desmantelamento da estrutura insalubre foi um processo doloroso, embora completamente necessário, para maior saúde de todos.


Algumas estruturas familiares são fortes e saudáveis o suficiente para tempestades como esta e alguns, infelizmente, não são.


O que as mulheres têm de se perguntar neste tipo de situação é: "a que custo?" O teu bem-estar emocional e físico não vale a pena o custo de proteger as pessoas (amigos OU familiares) dos seus próprios problemas que não estão empenhados em resolver ou reconhecer.


Tu não és responsável pelas emoções das outras pessoas


Liberando-te do papel de zeladora emocional para os outros é não somente um presente para ti mesma, mas também para os outros, mesmo que eles possam protestar quando confrontados com a necessidade de ter de volta a responsabilidade que eles tinham colocado em ti. Em última análise, este processo liberta a responsabilidade e a recompensa de volta para eles, para sua própria transformação, para a sua própria jornada. E isso coloca o teu próprio caminho à frente de tudo e no centro da tua própria vida.


Somos unicamente responsáveis por nós mesmas.


Enquanto há custos em se ser a zeladora emocional, tais como cansaço e a solidão, há também efeitos colaterais dos quais temos que estar disposta a abdicar, como uma sensação de controlo e de que somos necessárias ou valorizadas.


James Hollis, analista junguiano e autor, diz que o principal desafio em todas as relações, seja entre pais e filhos, ou entre parceiros de vida, é para honrar a "individualidade" do outro. O que isto significa é que é preciso a coragem de assumir a grandeza da nossa própria jornada sem pedir aos nossos filhos ou parceiros de suportá-la por nós. É o dom de honrar o "outro" na sua separação, sua "individualidade".


Parece paradoxal que a verdadeira intimidade é realmente possível quando possuímos totalmente a nossa própria separação e honra - devolvemos ao "outro" o seu direito de ser completa e totalmente responsáveis por si mesmos.


À medida que somos donos do nosso poder e libertar-nos do papel de zeladoras emocionais, libertamos os outros de possuírem o seu próprio poder.


Relacionamentos saudáveis são assentes num equilíbrio geral de dar e receber apoio emocional, de partilha mútua e de ouvir. Quando queremos viver o mais autênticas quanto possível, as relações nas nossas vidas que são as mais desequilibradas serão desafiadas a entrar em equilíbrio. Às vezes, o processo do desapego dos papéis desactualizados que temos jogado nas nossas vidas pode sentir-se como se estivesse a morrer, porque certos aspectos nossos estão a morrer, e outros mais autênticos, mais verdadeiros estão a surgir. É preciso coragem e uma bravura incrível para o nascimento em ti mesma desta autenticidade, separando quem realmente és, separando os padrões culturais e papéis que te foram sendo impostos ao longo do caminho. Lembra-te que não estás sozinha! Tal como tu te livras de papéis desactualizados, as mulheres em todo o mundo estão a fazer a mesma coisa! Quem tu realmente és, em toda a tua manifestação física, é uma oferenda para o mundo.



Alguns exemplos de como libertar o papel da zeladora emocional:


. Não vás a correr para "resolver" os problemas ou "consertar" o sofrimento dos outros. Em vez disso, fica apenas presente junto deles;

. Saber quando parar de tentar se explicar para as pessoas que não são empenhadas em realmente ouvir o que tens a dizer;

. Deixar que os outros tenham as suas perturbações, em vez de te apressares para ir confortar, explicar ou pedir desculpas (especialmente se a perturbação delas teve em si mesmas);

. Permitir que as pessoas tenham os seus equívocos sobre ti sem sentires a necessidade compulsiva de corrigi-los e fazê-los entender quem és tu/de onde estás a vir, etc;

. Deixar para trás pessoas e situações quando é claro que elas não são para o teu bem maior (mesmo quando eles estão a pedir ajuda);

. Arrisca a desaprovação externa para fazeres as escolhas que sabes que no teu coração estão certas;

. Define limites com pessoas ou situações que querem mais do teu tempo e energia do que aquele que estás disposta a dar;

. Amar e validar a ti mesma e o teu corpo, as tuas ideias, os teus sentimentos, mesmo quando as outras pessoas não são capazes de te apoiar por causa de suas próprias feridas - sem fazeres com que a outra pessoa esteja errada.



Perguntas para fazeres a ti mesma:


. Já protagonizaste um papel de zeladora emocional para os outros?

Qual o papel que desempenhaste na tua família?

. Alguma vez sentiste a responsabilidade ou impulso para cuidares?

. Que contratos não verbais podem ainda estar a operar na tua vida? Entre ti e a vida? Entre ti e os membros da tua família?

. O que estás dispostas a fazer de diferente para resgatares o teu próprio poder e devolver aos outros o seu próprio poder, mesmo que seja doloroso ou desconfortável?



Texto na sua versão original disponível aqui - http://womboflight.com/2013/08/13/releasing-the-role-of-emotional-caretaker/#comment-500

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